EM
TUDO
Marco
Bastos
Dia
se abre sem cadeado.
-
canto se canta canto entoado.
riso
se ri rindo de tudo.
-
tempo de si, sol sobre tudo.
Mundo
se mudo é tudo absurdo.
-
fala que a fala cala no fundo.
venta
que o vento só é movimento.
-
sente o sentir do vir e do ir.
Eu
nesse canto quanto me encanto
se
verso o sabor de um verso de amor...
- em
tudo...
Múltiplas e variadas são as
línguas e as linguagens, há muito tempo entendidas, intuitiva, apriorística, ou
formalmente, como instrumento de comunicação entre pessoas, povos, ou grupos. Toda língua resulta de uma convenção entre
aqueles que a conhecem e dominam, podendo adquirir características
modificadoras para, além de portar pensamentos, o fazer de forma diferenciada em
estilos. São estruturadas a partir de signos que se dão a conhecer pela forma,
pelo som, por sinais impressos, acústicos, gestuais, ou visuais com função “significante”,
e a esses signos associam-se conceitos denominados “significados”, que aos
signos emprestam um valor lógico de conhecimento e de reconhecimento, técnico
ou estético. O signo ao transportar ideias e pensamentos vem a se constituir no
elemento da “palavra” – unidade do discurso.
"Os significados das palavras fornecem a mediação simbólica entre o
indivíduo e o mundo, ou seja, como diz VYGOTSKY (1987), é no significado da
palavra que a fala e o pensamento se unem em pensamento verbal. Para ele, o
pensamento e a linguagem iniciam-se pela fala social, passando pela fala egocêntrica,
atingindo a fala interior que é pensamento reflexivo".
A partir desse ponto, da metalinguagem, da linguagem que
fala da linguagem, ou de uma linguagem, tentando explica-la beiramos o conceito
da tautologia, no sentido da coisa que se explica a partir de si mesma. “A fala
interior é pensamento reflexivo”, e não se consegue pensar sem recorrer às
palavras.
E tudo seria tão simples, linear e racional caso não
houvesse “denotação” – “palavras em estado de dicionário”, no dizer de Drummond
– significado mais próximo de sua expressão literal; e “conotação” - sentido
mais geral que se pode atribuir a um termo abstrato, além da significação
própria. Ou seja, a palavra se modifica no contexto em que se insere, ganhando
novos ou múltiplos significados, plasticidade denominada polissemia, em que a
mesma palavra não é sinônima de si mesma por conter significados diferentes.
Há diversificação com origem
na geografia, há bairrismos adaptando as linguagens a quase dialetos, há
diferenciações por áreas do conhecimento a exemplo da linguagem própria dos
poetas, do advogado, do médico, do engenheiro, etc.
A Comunicação se
estabelece entre emissores e receptores pela difusão de mensagens por meio da
línguagem convencionada que percorre um processo vivo de codificação, de divulgação
ou de propagação, e de decodificação de significados que representam ideias,
pensamentos, percepções, e sensações.
Enquanto na prosa predominam
as características denotativas das palavras, os poemas se valem com frequência de
recursos conotativos. Inventam metáforas, metonímias, figuras de linguagem e de
estilo, formas de expressão variadas a ponto de ser a poesia por vezes definida
como “Poesia é a maneira poética de se dizer”.
E, no entanto, tal assertiva não é vazia de significado nem é tautologia
viciosa no momento em que “maneira poética de dizer” passa a corresponder a uma
linguagem que distancia o significado da mera adjetivação.
A literatura descobriu a
potência do discurso bem antes da sistematização Semiótica. Para ela, “a
mentira repetida mil vezes não se converte em verdade” – a repetição
mecanicista simplesmente desfaz os significados, tornando o discurso vazio. A
palavra eleva-se à condição de matéria prima para a elaboração da arte, e a
Arte ultrapassa os limites do aparentemente belo. A adjetivação perde a sua
importância desde que ser linda é imanente à própria rosa, e adjetiva-la significa
admitir que a característica que lhe é inerente possa não existir. Do
classicismo deslocou-se para o gongorismo, para o parnasianismo, para o
simbolismo, para o modernismo, sempre em busca de suas “verdades”.
As Sociedades percebem na
linguagem seu alto poder de mudança e de alinhamento de vontades que se
converte em poder político no “discurso” de Foucault, composto de sequências
semióticas (relações entre sinais) entre objetos, assuntos, e declarações.
Noam Chomsky distingue entre
Estruturas Profundas e Estruturas de Superfície que supunha desempenhassem com
relação à linguagem o papel que as teses de Freud e Marx desempenharam com
relação à mente e à sociedade, respectivamente. A “estrutura profunda”, como
Chomsky a definiu em “The Current Scene in Linguistics” (1966), é “a forma
abstracta subjacente que determina o significado da frase”. Chomsky escreve
sobre a Manipulação Midiática.
Quanto à poesia, há
sinalização que indica evolução na direção de uma linguagem gestáltica,
substantiva, a envolver aspectos míticos, místicos, subliminares, psicológicos,
sociais, éticos e estéticos que permeiam o fazer poético, levando-o para além
do semântico para expressar o homem atual em toda a multiplicidade de
movimentos.
Marco Bastos
Marco Bastos é Engenheiro Mecânico. Professor em Escolas de Engenharia e de Administração de Empresas (até dez/2011). Pós Graduação em Docência no Ensino Superior. Membro do Conselho de Redação da Revista eisFluências desde outubro 2009. Escritor e pintor amador.