quinta-feira, 28 de março de 2013

REVISTA eisFluências - fevereiro/2013


Cliquem no Link para acessar a edição de fevereiro/2013, em quatro páginas. 

Na última página desse número encontram-se todos os links que dão acesso à Revista em vários formatos (livro e pdf), permitindo inclusive retroagir a todos os números publicados, desde o primeiro de outubro/2009.

Boas leituras.

Marco Bastos. 

sábado, 23 de março de 2013

NEOLOGISMOS E METALINGUAGEM


 NEOLOGISMOS E METALINGUAGEM: OS (DES)LIMITES DA PALAVRA EM ENSAIOS FOTOGRÁFICOS, DE MANOEL DE BARROS
André Almeida Alves PEREIRA1
Valdete Nunes SILVA2

RESUMO
A proposta desta comunicação é refletir sobre os recursos lingüísticos utilizados por Manoel de Barros em Ensaios fotográficos. O autor, que se vale da metalinguagem para a construção do texto literário em praticamente toda a sua obra, também possui como particularidade o uso recorrente de neologismos, seja ao atribuir novo sentido a palavras já existentes, seja por meio do emprego de palavras novas, não dicionarizadas, ou ainda, por meio de transposição de classes gramaticais. Ressalta-se que, neste livro, o poeta recorre à imagem para ornar o lirismo e a simplicidade do texto. Nesse sentido, a escolha das palavras não constitui apenas um modo de articular a beleza e a fruição, próprios da poesia, mas consiste em um jogo no qual subjazem uma reflexão sobre a língua portuguesa e a literatura. Pretende-se, portanto, analisar a construção do discurso e os efeitos de sentido que a metalinguagem e os neologismos produzem na composição poética de Ensaios fotográficos.

PALAVRAS-CHAVE: poesia, neologismo; metalinguagem.
Que a beleza foi musa inspiradora dos mais lindos versos que saíram das mãos de poetas desde Shakespeare a Drummond não é novidade; muito menos que feitos grandiosos foram relatados em epopeias extraordinárias por mãos como as de Homero e Camões. Mas eis que surge a poesia de Manoel de Barros, que, contrária ao senso comum, se faz despretensiosa da linguagem difícil, se quer inútil, desimportante e povoa páginas com tudo que use o abandono por dentro e por fora.

O poeta assim se apresenta ao mundo: Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão. É a partir dessa citação, que dialoga com sua visão de mundo, sua simplicidade e seu gosto pela terra, que duas indagações se fazem possíveis: de que é feito o poema? De que se faz o poeta?

Em se tratando de Manoel de Barros, são prováveis as seguintes respostas: o poema é feito de palavras; e o poeta é feito de poesia. Palavras que levam à reflexão sobre a linguagem, poesia que traduz a pureza do olhar do poeta sobre a natureza, o simples, o belo. A linguagem reinventada.

A partir dos títulos de suas obras, como se pode perceber em Livro das ignorãças, Retrato do artista quando coisa, Poesia quase toda, O fazedor de amanhecer, o autor já se anuncia um experimentador da língua, um artista da palavra que se vale de recursos lingüísticos para sua construção poética.

Entretanto, compreender as influências na produção de Manoel de Barros não é tarefa fácil. Profundo conhecedor da proposta simbolista, inspira-se em Arthur Rimbaud para mesclar os sentidos da poesia, para experimentar os “deslimites da palavra”. A forma e o conteúdo próprios dos versos tradicionais também não são preocupações em seu exercício poético. Contrariamente, o poeta parece embeber-se na poesia de Mallarmé ao dialogar com o branco da página.

Há, também, a influência da arte moderna que, segundo o próprio autor, lhe fez entender a lógica da poesia, de permitir que "uma árvore não seja mais apenas um retrato fiel da natureza: pode ser fustigada por vendavais ou exuberante como um sorriso de noiva”. Os estudos sobre as artes plásticas contribuem para a beleza dos versos escritos pelo poeta, como se pode perceber, em toda a sua obra, referências a vários pintores, como Picasso, Miró, Van Gogh e Braque. Além disso, são recorrentes em sua produção vários elementos visuais que remetem tanto a arte naïve – pela simplicidade dos referentes e a pintura destes sobre o papel – quanto a uma arte mais elaborada, como a collage, numa sobreposição de objetos descartados, inutilidades, latas enferrujadas, insetos e detritos. O desafio se apresenta e se supera imediatamente à nossa frente: o de fazer poesia com os restos.

Mas tais elementos não servem de subterfúgio para descartar o estudo no campo lingüístico da obra manoelina, que se destaca pelos constantes neologismos e metáforas, rompendo com os limites impostos pela língua e dilatando as possibilidades da criação artística.

Ensaios fotográficos é o “retrato” perfeito de como os recursos lingüísticos são articulados no trabalho de Manoel de Barros. Poesia auto-explicativa, metalinguagem e neologismos são elementos que compõem esse livro, constatadas no “texto a germinar sobre o branco do papel”; ou ainda, quando “as palavras se sujam de nós na viagem, mas desembarcam no poema escorreitas: como que filtradas”.

Dividido em duas partes – Ensaios Fotográficos e Álbum de Família – o livro não encerra em si unicamente poesias relacionadas ao tema proposto, mas apresenta uma estrutura própria de exposições fotográficas – na primeira parte – e de álbuns particulares – na segunda – se considerarmos a fragmentação da obra em fotografias e os títulos dos poemas como se fossem legendas afixadas ao lado delas: Comparamento, Despalavra, O vento, Miró; e Auto-retrato, O poeta, A doença, O provedor.

Se, por um lado, é possível perceber a influência das artes visuais no texto de Manoel de Barros, por outro podemos “ancorar” sua poesia ao lado de vários outros precursores dos neologismos. Camões, por exemplo, já apontava para o desenvolvimento da língua portuguesa, que ainda não possuía a riqueza vocabular de hoje. Contrariando a opinião dos conservadores de sua época, que consideravam os neologismos uma afronta à língua, buscou nos radicais gregos e latinos a formação de novas palavras para que a língua enaltecesse seu texto poético. É a partir da criação do poeta lusitano que compreendemos, hoje, o que vem a ser mundo, o que é estupendo, crepitante, ebúrneo, que indômito é o mesmo que bravo, e que láctea diz respeito à nossa galáxia.

Cruz e Souza, um dos maiores expoentes do Simbolismo brasileiro, também faz uso de neologismos em seu processo criativo. Em Broquéis, um de seus mais conhecidos livros, podemos ler em “Afra” a expressão “carne explosiva em pólvoras e fúria”, ou ainda, o título de um outro poema: “Acrobata da dor”. São também dele a criação das expressões crepusculamentos enlanguescentes, as belezas translucentes, as músicas clarinantes a violinar ritmalmente.

Já no Modernismo, temos o poeta Manuel Bandeira que, se dizendo inventor de “palavras que traduzem a ternura mais funda”, deu à literatura brasileira um dos mais belos verbos – teadorar. E a partir do neologismo criado, sua conjugação no intransitivo: Teadoro, Teodora.

Guimarães Rosa, inigualável inventor de palavras, à maneira de Camões, utiliza radicais gregos e latinos e busca, ainda, outros elementos da língua indígena e dos dialetos africanos para compor os processos de formação de seus neologismos, mostrando-nos, assim, como a língua é rica e que dela provém muito da magia literária.

Quem há de negar a beleza proposta pela conjugação do verbo intransitivo da poesia de Bandeira? Ou na musicalidade que encontramos nos vocábulos inventados por Cruz e Souza? E o que dizer, então, do grande mestre Guimarães Rosa, cuja linguagem reverbera sobre si mesma? As palavras são, portanto, instrumento de criação dos poetas.

Em Ensaios fotográficos, o desejo de apurar a reinvenção verbal se faz a partir da associação dos significantes e significados, o que nos permite ver que na Língua Portuguesa uma palavra é capaz de se transformar em várias, conforme o desejo do poeta. Tal arbitrariedade se evidencia, por exemplo, no excerto do poema “Despalavra”:
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidades de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades de árvore.

Em “O Fotógrafo”, poema que abre a série dos “ensaios”, o trabalho com as palavras faz surgir tanto a metalinguagem quanto os neologismos que provocam a reestruturação gramatical na poesia manoelina:
(...)
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei o carregador.
(...)
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.

O texto é vestido com a metáfora do fotógrafo que, munido de sua câmera, erra pela madrugada registrando os mais sutis “objetos”: o silêncio, o perdão, o perfume, a existência, o sobre. Encerrada ainda no poema, há uma reflexão sobre o processo criativo no qual o poeta (fotógrafo) vasculha a mente (aldeia) à procura das idéias (imagens) assim que se projetam.

A metalinguagem pode ser analisada, também, em “Comparamento”:
Os rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau, folhas secas, penas de urubu E demais trombolhos. Seria como o percurso de uma palavra antes de chegar ao poema. As palavras, na viagem para o poema, recebem nossas torpezas, nossas demências, nossas vaidades. E demais escorralhas. As palavras se sujam de nós na viagem. Mas desembarcam no poema escorreitas: como que filtradas. E livres das tripas do nosso espírito.

Nesse poema, a filosofia serve de pano de fundo para versos que comparam o percurso de um rio ao percurso das palavras, aquele recebendo “trambolhos” ao longo do caminho, este recebendo “escorralhas” antes de desembocar na página.

Seria possível acreditar na capacidade da fotografia de capturar o sentimental perdão e o invisível perfume? A metafísica existência e o abstrato sobre? Os neologismos em Manoel de Barros não acontecem simplesmente na formação de novos vocábulos a partir da junção de prefixos e sufixos, mas na ressignificação de termos e objetos com características pré-determinadas e por demais desgastadas, como é o caso dessa fotografia que capta o que os olhos não conseguem ver.

Outro exemplo é encontrado neste trecho de “Ruína”: “O abandono pode ser também (...) de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (...) digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela.” O poeta ressignifica a palavra “amor” ao dizer que Não tem gente dentro dela. Concomitantemente, a palavra “gente”, que no sentido comum abrigaria o “amor”, torna-se passível desse abrigo.

Retomando o poema “O Fotógrafo”, encontramos uma inversão de classes gramaticais no verso Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado. O silêncio, até então considerado um substantivo, nesse caso, torna-se sujeito, atribuindo a “bêbado” a posição de agente da passiva.

Em “Palavras”, o autor abstém-se da responsabilidade a ele conferida de desestruturar a linguagem:
Veio me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar debaixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que uma palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao retirar debaixo de mim o lugar, eu desaprumei. Ali só havia um grilo com sua flauta de couro. O grilo feridava o silencio. Os moradores do lugar se queixam do grilo. Veio uma palavra e retirou o grilo da flauta. Agora eu pergunto: quem desestruturou a linguagem? Fui eu ou foram as palavras? E o lugar que retiraram debaixo de mim? Não era para terem retirado a mim do lugar? Foram as palavras pois que desestruturaram a linguagem. E não eu.

As palavras, antes apenas passivas das vontades do poeta, tornam-se, agora, agentes que
detém o poder da ação. Elas são capazes de tirar o lugar de debaixo do poeta, de retirar o grilo de sua flauta.
Já o poema “Línguas” traz um toque de bom humor aliado ao tema da “desimportância” e ainda arranjos que possibilitam analogias aos vários significados da palavra língua:
Contenho vocação para não saber línguas cultas.
Sou capaz de entender as abelhas do que alemão.
(...)
A única língua que estudei com força foi a portuguesa.
Estudei-a com força para poder errá-la ao dente.

Nos dois primeiros versos há claramente uma transgressão gramatical ao ser suprimido o termo “mais” que completaria a comparação desejada. E na segunda estrofe podemos entender a expressão “errá-la ao dente” como sendo 1) o ato de cometer um desvio ortográfico ou gramatical; 2) não permitir que o conhecimento da língua refreie a criatividade, mas ao contrário, que permita dar novos sentidos às palavras, fazendo-as vagarem pelo mundo das significações; 3) “al dente”, como na expressão italiana que significa “no ponto certo”, no sentido de saber até onde é possível experimentar; 4) a língua como órgão que é utilizada para a fala e recorre aos dentes para reproduzir determinados sons.

Ensaios fotográficos é, pois, a linguagem indiferente ao comportamento das coisas. É lirismo, simplicidade, prazer, gozo Os “desvios” do poeta têm como finalidade apenas a sua própria volição: realizar a “tarefa mais lídima da poesia, que é a de equivocar o sentido das palavras”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, Ieda Maria. Neologismo – criação lexical. São Paulo: Ática, 2004.
BARROS, Manoel de. O livro sobre nada.11ª.ed.Rio de Janeiro: Record, 2004,
_____. Retrato do artista quando coisa. 5ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007,
_____. Ensaios Fotográficos. 7ª.ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.
CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem e outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. 4.ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.
SOUZA, Cruz e. Broquéis. São Paulo: Martin Claret, 2002.

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1UNILESTEMG- Centro Universitário do Leste de Minas Gerais
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UNILESTEMG- Centro Universitário do Leste de Minas Gerais
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valdetenunes@gmail.com

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SOBRE METALINGUAGEM



METALINGUAGEM : POESIA SOBRE POESIA

METALINGUAGEM POÉTICA,

A FALSA MUSA.

por Altair de Oliveira




Contrariando o nosso preceito costumeiro de "poesia como a vida", a nossa coluna de hoje faz referência à metalinguagem poética que, numa tradução simplista, é a "poesia sobre poesia" ou a é a poesia feita sobre o fazer poético, uma mania de escrever que já podia ser notada nos mais remotos textos de poesia, mas que a partir do século XX tem se tornado uma prática bastante comum entre nossos poetas, talvez devido à diversidade dos cursos que estudam este assunto nos dias de hoje.

Para se ter uma idéia da quantidade de poesia escrita que utiliza-se da metalinguagem como tema, numa rápida pesquisa pela internet eu consegui reunir mais de 10 poemas que tinha como título justamente "Metalinguagem Poética". Imaginem a quantidade de textos metalinguísticos que não encontraríamos! Dizem que certa vez o grande poeta americano Lawrence Ferliguethi teria dito que "poesia sobre poesia é algo muito chato...". Nem sempre, diria eu. Prova disso é que um dos poemas mais conhecidos e apreciados do, também grande, poeta Fernando Pessoa, "Autopiscografia", é um poema com metalinguagem.

Outros poemas metalinguísticos também foram bastante polêmicos na época de sua publicação e alguns continuam polemizando até hoje. Destes, eu citaria aqui "Profissão de Fé", de Olavo Bilac, e também "Os Sapos", de Manuel Bandeira, ambos tratavam dos espíritos das escolas literárias de sua época (Parnasianismo e Modernismo) e o poema de Bandeira parecia querer combater o formalismo parnasiano de Bilac. O engraçado disto é que Manuel Bandeira nem foi um poeta fechado na escola modernista, ele atravessou vários movimentos literários, inclusive chegou a escrever poemas concretos. E um dos traços marcantes do movimento concretista foi a de discutir a poesia e de fazer uma poesia crítica e de valores formais, norteada por grandes autores do passado que também foram considerados críticos. Um destes grandes poetas cultuados pelos poetas concretos foi o francês Stéphane Mallarmé, que também foi um poeta parnasiano.




O certo é que parece que os poetas sempre tiveram uma certa necessidade de explicar o que é poesia, talvez até para justificar suas estupefação diante dela. E a poesia que, como os senhores já sabem, é um espanto! Ela sempre esquivou-se à qualquer medida, normatização ou codificação. Sorte nossa, eu quero lembrar aqui, porque com os avanços tecnológicos atuais seria bem possível um gaiato qualquer inventar um chip para um "poemapod" da vida e, com isto, desempregar toda esta poetada que arrisca escrever um poema metalinguístico, sempre que a musa verdadeira fica de TPM.


Cinco Poemas Metalinguísticos

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda 
Que se chama coração. 

Poema do português Fernando Pessoa. 

*** 

POÉTICA 


Sem autoria e sem versos a poesia será encontrada 
na pedra 
no rosto e na copa das árvores ensimesmada 

sinal 
da sina 
cor nos azulejos 

o abraço das palavras 
renova a presença das portas 
e janelas de uma casa. 

A poesia sim 
se presta à prosa 
da vida 
invisível porcelana.

Poema do português Fernando Paixão. 



***

ANTEPASTO

Tudo o que o Poeta escreve 
está resumido 
numa única palavra: Solidão. 

Escrever é distanciar-se do mundo 
para poder entendê-lo 
é uma forma de morrer. 

Viver é outra coisa 
ainda que alienada.

Eu trocaria mil rimas 
por uma noite de amor. 

E trocaria um belo poema 
sobre a fome 
por um singelo prato de comida.

Poma do maranhense Antônio Miranda. 




***

ARS POETICA 

A poem should be palpable and mute 
As a globed fruit, 

Dumb 
As old medallions to the thumb,

Silent as the sleeve-worn stone 
Of casement ledges where the moss has grown — 

A poem should be wordless 
As the flight of birds. 

A poem should be motionless in time 
As the moon climbs, 

Leaving, as the moon releases 
Twig by twig the night-entangled trees, 

Leaving, as the moon behind the winter leaves, 
Memory by memory the mind — 

A poem should be motionless in time 
As the moon climbs.


A poem should be equal to:
Not true. 

For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf. 

For love 
The leaning grasses and two lights above the sea — 

A poem should not mean 
But be.

Poema do americano Archibald MacLeish (1892 – 1982). 

*** 

PROFISSÃO DE FÉ

Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor 
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara 
A pedra firo: 
O alvo cristal, a pedra rara, 
O ônix prefiro. 

Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel 
A pena, como em prata firme 
Corre o cinzel. 

Corre; desenha, enfeita a imagem, 
A idéia veste: 
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem 
Azul-celeste. 

Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim, 
No verso de ouro engasta a rima, 
Como um rubim.

Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito 
De ourives, saia da oficina 
Sem um defeito: 

[...] 

Assim procedo. Minha pena 
Segue esta norma, 
Por te servir, Deusa serena, 
Serena Forma! 

Poema do carioca Olavo Bilac (1865-1918).

*** 


Para ler mais sobre o poeta "Archibald MacLeish":
http://www.poets.org/poet.php/prmPID/47

Para ler mais sobre o poeta "Olavo Bilac":
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u166.jhtm


***

Ilustrações: 1- foto de trabalho do pintor cearence Aldemir Martins; 2- foto do poeta francês Stéphane Mallarmé; 3- outro trabalho de Aldemir Martins; 4- foto do poeta americano Archibald MacLeish 

Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.

quarta-feira, 20 de março de 2013

ANTOLOGIA LOGOS - Nº 1 - MARÇO/2013

E AQUI VAI COM O SELO DE QUALIDADE DE CARMO VASCONCELOS E HENRIQUE RAMALHO.



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sábado, 16 de março de 2013

SOBRE UMA MENSAGEM DO PAPA


O Papa Francisco pede aos Argentinos: "Não venham para a missa do dia 19 em Roma. Doem o dinheiro aos pobres." (notícia)

Estou aqui a pensar nos significados simbólicos, complicados, da fé e do dinheiro - pensando em bezerros de ouro. Um Vaticano vazio é um Vaticano morto. 

Mais crescem na atualidade as igrejas que fazem questão de ter seus fiéis dentro dos templos (até, talvez ou principalmente, para arrecadarem dinheiro, doações e dízimos) para manterem o 'rebanho' reunido. Constroem enormes templos em pedra e cal - talvez por saberem que os templos que se erguem nos corações e nas mentes são muito fugazes e volúveis - apesar de se dizer que 'a fé remove montanhas'. 


Há um ditado popular que fala que 'quem parte e reparte fica com a maior parte' - e nesse processo de acumulação de capitais acontecem a mais valia (nas trocas a usurpação e a apropriação de parte do valor), e o enriquecimento dos homens e dos Estados.


Para fazer coisas é necessário ter condições e capacidade de se fazer. O "acontecer" nada mais é que dar existência e materialidade a ideias e crenças através do alinhamento de vontades. O acontecer depende de potência e de massa crítica. 

A moeda foi feita  redonda para rodar, e o entesouramento é estéril porque acumula, mas não realiza - também se diz. O não-acontecer, o não-realizar é a maior pobreza - é só dinheiro que se acumula. E vivemos em um mundo cheio de disparidades, poucos com muito e muitos com quase nada. Dessa constatação nascem as ideologias que se transformam em políticas; há vontades que se realizam e vontades que se frustram. 


O "Rei" de Éxupéry achava que deveria construir uma Cidadela no coração dos homens: "se eu quiser que os homens saiam para o mar, não lhes ensinarei a trabalhar a madeira, a conhecer os ventos e as marés, a desenhar navios e a tecer tecido para as velas. Basta que eu passe para os homens a vontade-de-sair para o mar" – mais ou menos isso. 


Há verdades apriorísticas e há verdades a posteriori. 

Acredita-se que as primeiras sejam inquestionáveis e verdadeiras (e boas) pela própria natureza. Não dependem de confirmação. As outras é preciso que se comprove. 

Mc Gregor construiu duas teorias, a X e a Y. Na X o homem é preguiçoso, mal intencionado, relapso, socialmente irresponsável. Na Y, ele é imanente e inerentemente proativo, responsável e bom.


O homem socialmente bom, em tese, e aprioristicamente, é altruísta, solidário, fraterno, e capaz de interagir bem com seus pares, com igualdade. 
Há quem concebe Estados-de-paz-social onde prevaleceriam tais características. 
Há quem acredita que para ser alcançado tal estado-fim, quaisquer meios seriam justificáveis - até mesmo aqueles que ad-hoc sejam incongruentes e antagônicos, em princípio. 

E acho que estão aí quase todos os ingredientes dessa salada-mista que é o homem-em-sociedade.


Observo que há políticas dissipativas e distributivas de recursos. Há políticas que são concentradoras de valores. 
Há Estados que confiam na capacidade e nos valores para conseguirem coisas através da livre-iniciativa de seus povos. 
Há Estados que não confiam e que são altamente tributadores para conseguirem concentrar tais recursos e com isso poderem realizar o que conceituam como bem-comum. 
Há políticas que chamam para si a responsabilidade pela produção e pela distribuição das riquezas, talvez por considerarem que prevaleçam na sociedade os homens X.

Para a organização das vontades e das atividades, a humanidade sempre realizou grandes projetos (muralhas da China, pirâmides egípcias e maias, torre Eiffel, grandes palácios e monumentos, estradas, ferrovias, brasílias, grandes navegações, viagens à Lua, aceleradores de partículas, imensos telescópios, engenhocas no solo marciano, ou viajando no Sistema Solar e no espaço interestelar - alguns com objetivos práticos e utilitários, outros tendo somente o objetivo de alinhar e bem-resolver as pressões e as atividades sociais. 
Criar inimigos externos sempre foi, desde a antiguidade, uma forma de conseguir coesões internas. Para todos os grandes projetos sempre foi necessária a concentração e densificação dos capitais, independentemente da cor das bandeiras e das ideologias.

Estados distributivos e comunitários foram e ainda são encontrados em pequenas sociedades primitivas, isoladas no tempo e no espaço, vivendo da Natureza - sociedades extrativistas e coletoras, muitas vezes nômades pela exaustão geográfica dos recursos naturais. 
A dissipação pura e simples dos recursos nunca realizou grandes projetos. A carência sempre manteve elevadas as propensões ao consumo.

Os grandes projetos distribuem os recursos remunerando o trabalho ou adquirindo bens, que também remuneraram o trabalho para virem a existir como coisas, bens ou serviços. 
O rover que está em Marte levou para Marte poucas toneladas de materiais. 
Os milhões de dólares gastos foram distribuídos entre milhares ou milhões de terráqueos que trabalharam diretamente no projeto ou que produziram algum bem consumido no mesmo. O garimpeiro analfabeto dos sertões baianos pode ter pago seu feijão e a sua carne-seca ao vender o cristal-de-rocha que foi usado na fabricação de componentes eletrônicos necessários aos equipamentos da astronáutica.

Com relação ao Papa e ao seu pronunciamento, penso se tratar de contrainformação para amenizar as pressões que estão sendo feitas, acusando-o de ter sido omisso na época da ditadura argentina. As esquerdas querem as contrapartidas. O Papa responde com discurso populista. 
Todos bem sabemos que para ir a Roma, estaremos gastando dinheiro, símbolo do que foi ganho em atividades produtivas. Sabemos que são as viagens que viabilizam as companhias de transporte, que pagam os tripulantes, rendem salários para os operadores de terra, que viabilizam a rede hoteleira, e remuneram o criador de ovelhas pela lã da elegante roupa do viajante. E por aí vai.

Percebo tentativas de forte politização a partir e na escolha do novo Papa. Nisso devem estar atuando grandes forças internas à própria Igreja e também externas a ela. 

Entesourar não é boa coisa. Dissipar recursos também não leva a nada.


É preciso se construir o bem no coração dos homens. A vida não é só fluxo de moedas. O homem precisa se desenvolver espiritualmente até para tratar seu semelhante com mais igualdade e dignidade.

Marco Bastos.

terça-feira, 12 de março de 2013

CARTINHA DE MANHÃ CEDO




CARTINHA DE MANHÃ CEDO
Marco Bastos

Estou aqui, Facebook, só pensando. E como sempre acontece, quem olha alguém que pensa, pensa que o outro não está fazendo nada. E vice-versa. 
Pelo menos, esse vice versa. 

E, como passou o tempo das bancas de jornais e o Sol ainda se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas e Cardinales bonitas, abri a minha janela, e fiz minha reverência: 

Alegria-Alegria - Bom dia, Sol; bom dia, passarinhos; bom dia, árvores, nuvens e o azul do céu. Bom diiiia, Dia! - Está gostoso o seu perfume na brisa da manhã!. rs.

E fui ver o mundo através das minhas janelinhas (ou seriam escotilhas?) que só mostram o que querem mostrar - mundo grande e antigão; treze bilhões de anos, treze bilhões de anos-luz! a partir do Big-Bang - nem pensar em criação, renovação contínua, que isso vai contra a irradiação de fundo. Então, toda a matéria está contida nesse paraboloide-hiperbólico que se vê; e os outros muitos por cento que não se conhece  são matéria-escura.

E brilham os sóis e as inteligências - as conhecidas e as que ainda se procura no Universo. E o bichinho é teimoso e presunçoso - habitabilidade nos exoplanetas é mesmo coisa muito importante. 

Imagine você que o ET que vive naquela estrelinha próxima, (65 milhões de anos-luz é um nada no Universo) hoje constatou e certificou-se que a Terra é habitada por dinossauros, ameaçados por um grande asteroide. Solícito, altruísta e amistoso, não perdeu um segundo para avisar, a nós dinossauros, para termos cuidado. Certamente os nossos descendentes mutantes, ao receberem a mensagem daqui a outros 65 milhões de anos, agradecerão as providências, após registrarem nos chips da história que nós homens fomos uma lenda quase esquecida sobre a Terra. 

Coitado daquele ET! - para ele, nesses breves 130 milhões de anos, entre esses dois momentos, na Terra só houve os dinossauros e um outro ser que não sabemos como vai ser. Sem respostas, morreu há milhões de anos, rezando ao Criador e escrevendo poesias solitárias, sentindo-se tão sozinho em um mundo tão vazio.

Bom dia, Dia! - por favor dê um pause nas calendas do Universo que vou ali correndo para pegar a roupa na lavanderia. Nessa vida atual não se tem mais tempo para nada!

J.S.Bach - Air On the G String

segunda-feira, 4 de março de 2013

A SOCIEDADE DA COMPLEXIDADE


A SOCIEDADE DA COMPLEXIDADE
Por Marco Bastos

" La antigua patología del pensamiento daba una vida independiente a los mitos y a los dioses que creaba. La patología moderna del espíritu está en la hiper-simplificación que ciega a la complejidad de lo real. La patología de la idea está en el idealismo, en donde la idea oculta a la realidad que tiene por misión traducir, y se toma como única realidad. La enfermedad de la teoría está en el doctrinarismo y en el dogmatismo, que cierran a la teoría sobre ella misma y la petrifican. La patología de la razón es la racionalización, que encierra a lo real en un sistema de ideas coherente, pero parcial y unilateral, y que no sabe que una parte de lo real es irracionalizable, ni que la racionalidad tiene por misión dialogar con lo irracionalizable." (EDGAR MORIN)


Vivemos cada vez mais em uma Sociedade que está sob a égide dos 'fenômenos complexos'. Parece que a necessidade de reconhecer e agir em conformidade com isso, no campo econômico-social, hoje é subestimada e por isso, talvez, tal complexidade seja menosprezada pelo senso comum que é suficientemente arrogante para considerar que de tudo entende. Vemos o mundo pela lente dos nossos paradigmas.

As Ciências Físicas gradualmente esgotaram ou superaram a descrição determinística, das ações e reações, das causas e efeitos, mecanicista, para melhor entenderem os seus fenômenos e controlarem os seus processos. Da Mecânica Clássica, da Mecânica Celeste meramente descritiva evoluiu-se para os modelos probabilísticos, para a Física Quântica e Relativista, com Plank, com Einstein, com Heisenberg que enunciou e demonstrou o Princípio da Incerteza, e do micro ao macro, entrou-se na intimidade da matéria e remodelou-se o Espaço, através de uma nova Astrofísica.
O Espaço é como é por conter o que contém, e contém o que contém por ser como é. A Invariância de Escala a definir os modelos de auto-semelhança tal qual nos fractais, espelha a ordem no caos.

A Cosmologia no seu périplo cosmogônico aproximava-se do que se intui seja o Tao - na coexistência, interação e interpenetração dos opostos, no todo inseparável, matéria-tempo-espaço, porque afinal a Ciência não esterilizou ou aboliu a intuição humana. Ao que parece o Tao é a essencial não-essência do agnóstico.

Geometria dos espaços multidimensionais, Riemann, Física Relativista, enorme esforço intelectual para aprimorar os modelos e para submetê-los ao que se compreende, ao que se percebe ou se verifica como sendo "realidade". Para isso foi preciso eliminar ao máximo aqueles conceitos subjetivos e abstratos que criam elementos artificiais inexistentes na Natureza e que teriam sido "construídos" para dar consistência intrínseca aos modelos incompletos.

Assim ruíram várias teorias nos campos da Física e das Ciências Naturais, das Ciências Biológicas e impõe-se o Mundo do objetivismo e da objetividade. 

A Termodinâmica encontrou na Entropia a medida para o caos. Os modelos dos Gases Ideais alcançaram os seus limites e preponderaram a Teoria Cinética dos Gases probabilística e o empirismo das Equações dos Gases Reais.

Na Ciência do Conhecimento e da Inteligência, Cibernética, Wiener nos fala do mundo "contingente e probabilístico" e propõe que a Informação seja nos sistemas sociais o equivalente à entropia dos sistemas físicos.

No Holismo, na Ecologia, o célebre: "bater das asas de uma borboleta na Ásia resultando em um tsunami na América Latina", metáforas ou meras intuições, a nos falarem sobre equilíbrio estável, aquele que permite retornar à posição inicial os Sistemas que modificaram o seu estado e, por recorrência e fechamento, também sobre o equilíbrio instável, no qual o estado de equilíbrio nunca seria naturalmente recuperado, uma vez o Sistema se desequilibrasse.

Na Filosofia, na Metafísica, a Dialética Idealista cede espaço à Dialética Materialista, e essa mesma Dialética, deu origem a um processo que transforma a Filosofia em ideologia. No entanto, ao se tratar do Conhecimento, toda ideologia conduz à cristalização de paradigmas e ao distanciamento do homem-como-é do seu mundo-como-é: estado, processo, potência e ato. Sabemos que ambos, homem e mundo são capazes de mudanças e a compreensão e o entendimento da realidade momentânea, efêmera, transiente e transitória pressupõe a permeabilidade e a flexibilidade que a ideologia costuma neutralizar. Tese, antítese e na síntese aquela dialética trazia em seu bojo a demonstração da sua lucidez e da completude do seu modelo: na própria tese havia a antítese imobilizando-a (através da ideologia).  

Em tempos tão confusos, nova Idade das Trevas (?), toda a aspiração humana passa a ter um objetivo meramente econômico que pleiteia e prescreve o crescimento da riqueza material, ou a transferência de renda entre as classes sociais ou as duas coisas simultaneamente. 
As verdades apriorísticas, éticas, Liberdade, Fraternidade, Igualdade, teriam que comprovar a sua eficaz veracidade, transformando a Humanidade de forma, ou como se, o Homem fosse Igual, Fraterno e Livre. 
Nesse caso ao que parece o modelo superpõe-se ao que se constata embora isso não anule a possibilidade de acontecer essa verdade no devir.

A Economia coopta a Filosofia e a substitui na função de definição dos valores. Nietzsche nos fala sobre a Genealogia da Moral e alerta que o 'bom' corresponde ao 'bônus' latino, recompensa monetária; sinédoque de número, o todo pela parte. 

O estado de "bem-estar", o sentido de progresso e evolução associou-se principalmente à capacidade de "consumir" coroada sobre outras conquistas em outros campos tais como o da saúde, da educação, da segurança, etc. 
A "mão invisível", imagem do próprio bio-sócio ectoplasma, com Adam Smith ou a intervenção do Estado sobre a Economia, com Keynes ou Marx, regulando sobre a riqueza, emprego e renda, incumbir-se-iam de propiciar que tal estado de prosperidade e bem-estar fosse alcançado.

O Pensamento ocidental transitou de Sócrates, Platão e Aristóteles, para Kant, Hegell, Engels e Marx, como idéias principais. As variantes periféricas, as ideias e percepções de outros filósofos intimistas, religiosos e existencialistas foram menos condicionantes, e menos sistematizadoras no que se refere a se converterem em dogma e práxis social e política. Para o  teísta Teillard de Chardin a evolução se dá em direção à crescente complexidade (convergindo para Deus).

Na linha dos que acreditam que "as nádegas reequilibraram o corpo e, libertando as mãos do Homo Erectus, permitiram que pela utilização das mãos se desse o desenvolvimento da capacidade cerebral", a Filosofia e a Economia se unificam e o "conhece-te a ti mesmo" agora tem um objetivo no aqui e no agora: fazendo o pobre menos pobre e o rico menos rico, todo o drama humano estaria resolvido com os dogmas dos dois capitalismos, o do Estado e o Privado. 
Para os espoliados pelo grande Leviatã ou engolidos no capitalismo do time-is-money, a outra facção político-filosófica se apresentava como tábua de salvação, e revestia-se, por conseqüência, de pretensas qualidades libertárias e niveladoras dos desequilíbrios sociais.

Não mais Gestalt, agora Behaviorismo. Não mais Filosofia, agora Sociologia e Ciências Políticas e dentre essas a Economia. O Homem colocou-se ou se descobriu no centro do Universo. Não mais interessava conhecer e entender o Conjunto, mas sim administrar os relacionamentos para gerar comportamentos adequados. E a Ciência Social andou no sentido inverso ao das Ciências Físicas.

De fato, pela ignorância e limitação dos meios e da parca capacidade de estruturação de soluções, as Ciências Físicas iniciaram o seu "corpo de ciência" no campo do empirismo Operacional e a partir daí evoluíram para a compreensão do Universal. 
As Ciências Sociais e em particular a Filosofia, iniciaram suas perquirições no campo do Universal e reduziram-se ao campo do Utilitarismo, satisfazendo-se por pretensamente conseguirem domar o Capital, subjugando valores morais e éticos ou os ajustando ao que se pretendia que fosse o Homo Economicus.

Pobres políticos, que se colocam como condutores da História. Nepotismo, corrupção, ausência de referenciais e de valores morais e éticos. Fisiologismo do "toma-lá-dá-cá", "é dando que se recebe", em tudo parecendo os jogos de meninos. Pretensos líderes, ingênuos arrogantes sem espelho, se fartando no poder. Precisam conhecer Edgar Morin.

A Humanidade com o desenvolvimento das Ciências da Saúde, Nutricionais, da Química, da Física, da Engenharia e Urbanismo etc., por ter alcançado condições materiais de saúde, habitação, trabalho e vida mais saudáveis encontra-se em um processo de explosão populacional sem precedentes. Tal processo vem acompanhado ou produzido pelo relaxamento dos referenciais culturais, dos valores morais, éticos, e de responsabilidade social. Ao que parece somente a pequena-burguesia não praticou ao longo da História a liberdade sexual e as populações nas classes materialmente menos aquinhoadas sempre foram desproporcionalmente maiores.   

Ao lado desse crescimento populacional desenfreado acrescente-se a "mentalidade" e a significância do valor social dado à capacidade de consumir assoprada pela efetividade das Ciências da Comunicação e da Indústria da Publicidade - alcança-se como querem os economistas uma elevada propensão marginal ao consumo. 

Chegamos à uma equação já antiga, formulada por Malthus, mas não denominada de Equação da Inconseqüência : Inconseqüência = excesso de população + consumismo.

E a quem satisfaz essa equação?

O crescimento da Inconseqüência satisfaz ao Capitalismo do Time-is-Money por representar vendas crescentes e consequentemente elevação da remuneração do capital (lucros).

O crescimento da Inconseqüência satisfaz ao Capitalismo do Estado tendo em vista que massas populacionais significativamente grandes e crescentes são dependentes do Estado, legitimam o discurso populista das esquerdas, dão consistência a esses regimes políticos e fortalecem o poder e o status-quo.

Como ao Homo-Sapiens restou apenas o valor representado pelo 'ter' e pela capacidade de consumir, seria de se esperar que o Império da Inconseqüência se implantasse. Thanatus e Eros se apaziguaram e o mundo hedonista cuidaria para que afinal o Homem fosse feliz.

Se os sete bilhões vivessem como os paulistanos, três planetas-Terra seriam necessários para disponibilizar os recursos materiais.
Ultrapassado o limiar da dor, mais dor não é sentida.

O que escrevi acima foi só para organizar meus pensamentos e na impossibilidade de tratar a imensa variedade de situações, me atenho somente àquelas que independem de Estatísticas, são compreensíveis pela própria vivência diária de todos nós, e apontam para a existência de desequilíbrios incontestáveis.

O CAOS NO MEIO AMBIENTE. 
Insalubridade e poluição, esgotamento e comprometimento de fontes de recursos, desorganização urbana, favelas, incluindo a saturação no trânsito nas áreas com maior concentração demográfica a gerar stress e ônus pelo comprometimento do tempo de 30% ou mais das horas normais de trabalho - tributo que a população paga ao Estado mal gerido. Catástrofes climáticas e ambientais. Deslocamento das pessoas para os grandes centros - é absurdo o vazio dos campos, o despovoamento do interior e ao mesmo tempo haver a degradação das condições de vida nas cidades grandes.

O CAOS NO SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL.
Os capitais fungíveis e as explicações para a enorme amplitude de variação na cotação dos ativos no mercado de capital. Os déficits, o nível de desemprego, e as tentativas desesperadas de evitar a ruptura total do sistema financeiro através de orçamentos fabulosos. O entrechoque das opiniões. O desabastecimento. O estado precário de saúde, de nutrição, de educação e da capacidade de inserção no sistema econômico de grandes contingentes populacionais.

O CAOS NAS INSTITUIÇÕES.
Invasão de repartições públicas e organizações privadas. O recrudescimento de movimentos sociais, a inércia dos governos. Migração de populações. A violência urbana. As organizações paramilitares, o crime organizado. Guerras,  genocídio, e êxodos forçados de sobreviventes.

É sobre essa poesia que nós pobres poetas devemos nos debruçar, sem, no entanto descambarmos para a arte engajada, desde que não queremos estar a serviço das mesmas forças que degradam a Humanidade. Não dá mais para nos encantarmos somente com os relacionamentos amorosos, com o corpo humano e com a libido, esquecendo-nos do mundo em que vivemos. E, no entanto, não devemos desprezar o que enfeita a vida e a faz mais bela e saudável.