domingo, 15 de junho de 2014

ANTOLOGIA LOGOS/FÊNIX - MAIO 2014.


Marco Bastos








ESTRELA CADENTE
Marco Bastos

No fundo da noite,
no começo do céu,
a estrela de prata
era cisco.

Depois, vento de açoite,
movimento e pincel,
e a estrela de luz
era risco.

Era uma pauta
salpicando ao léu,
mil notas de flauta,
entre o rio e a mata.

E na hora exata,
no fundo da noite,
no começo do céu,
de um arbusto
voou de susto,
um pintassilgo
- de prata...
 
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O POEMA:

Eu gosto desse poema que escrevi já tem algum tempo. Sempre me emociono ao relê-lo. Ele tem uma simbologia que transcende mas que não sei explicar, e é bastante coerente com o panteísmo agnóstico que me agrada. Os céus me encantam, mas é esse céu de estrelas, planetas, nebulosas e galáxias, de cúmulos, nimbos, cirros, torreões, estratos, de algodão-doce e carneirinhos. Desde a infância e ainda hoje acordo alegre nas manhãs de altos-cirros esgarçados. Fiz muitas viagens noturnas para a Chapada Diamantina. e no percurso de quinhentos quilômetros, atravessava duzentos quilômetros de Caatinga onde o semiárido tem uma atmosfera muito seca e transparente. Várias vezes parei o carro no acostamento (estradas desertas) e desliguei os faróis para observar o céu - uma imensidão de luzes, brilhos e de "sacos de carvão". E ali permanecia até quando sentisse medo diante da imensa imensidão. Ouvia os carcarás, as corujas e gaviões, mas a essa hora nunca ouvi um pintassilgo - eles acordam ao raiar do Sol, cantam muito, canto belíssimo quando dobram o canto, mas dormem cedo. rs.

Marco Bastos
Salvador - Bahía - Brasil

5 comentários:

Maria Angela disse...

Com certeza, você fez uma viagem para fora de si mesmo! Desprendeu-se, desligou a tomada. rss...Por mais que tente explicar, ninguém, nem você mesmo, vai conseguir expressar com riqueza e profundidade,em palavras,esse momento único, só seu!Você desligou-se do mundo terreno por instantes e mergulhou nesse céu de imensidão, levado nas asas do pássaro prateado!Sinal de liberdade!E pela sua explicação foi exatamente o que experimentou naquela hora daí sentiu medo, como qualquer pássaro preso em uma gaiola, sentiria, ao experimentar o voo livre, e eu acredito que todos nós sentiríamos, essa sensação de liberdade real. Penso que, tem que estar muito bem sintonizado, em uma harmonia perfeita, para experimenta-la, também creio que não se dá em qualquer lugar nem com qualquer pessoa, não basta querer,tem que, antes de tudo se despojar, e foi o que você fez, desligou não somente o seu carro e os faróis, você se integrou completamente com a natureza. A sensação que tenho é que você naquele instante se entregou completamente ao etéreo, fazendo uso do visual e do sensorial e de uma forma tão completa, que saiu de si mesmo e com certeza foi levado pelas asas do pássaro prateado, porque nenhum de nós estamos autorizados a fazer essa viagem sozinhos, esse pássaro é símbolo de liberdade,e é nosso elo de comunicação com o etéreo,alguns o conhecem como cordão de prata, e você voltou a si, quando ele pousou seu períspírito (alma) novamente no seu lugar e partiu...nossa, uma sensação de liberdade, penso que rara, e talvez por isso sentiu medo, medo da imensidão que você viajou, medo do infinito, do vazio preenchido só por sensações. belíssimo! Eu faço essas viagens, mas, só consigo durante meu sono, já me vi, flutuando meio aos meteoritos, rochas negras como carvão, eu volitava no meio deles, senti também esse medo de infinito de vazio,e já acho ótimo, imagine da forma como você fez, penso que eu também sentiria medo.obrigada pela partilha.

Marco Bastos disse...

Obrigado pela sua leitura e pelas palavras, Maria Angela de Castro. Achei interessante a sua forme de interpretar os fenômenos da mente. Para quem acredita que a alma pode se desprender do corpo material, e vagar pelo espaço, tudo fica mais fácil de ser compreendido. Tenho um amigo do tempo de faculdade que relatava a mesma coisa, de se sentir fora do próprio corpo, de flutuar, e inclusive de se observar deitado em sua cama. A minha sensação não foi de ter havido a separação, mas foi de ter ficado totalmente absorto e maravilhado com tanta beleza que eu via. bjs.

Jorge Sader Filho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Sader Filho disse...

Você é um homem ligado ao conhecimento, Marco.
Felizmente, não é um aventureiro, como tantos...
Meu abraço.

Marco Bastos disse...

Obrigado, Jorge Sader Filho. Conhecimento é uma "construção" sempre passível de ser ampliada. Mas é uma coisa sem fim. Apenas a velocidade é crescente, pois conhecimento leva a mais conhecimento. Não se deve buscar atalhos e nem considerar que o ápice foi alcançado. abraços.